Saída do Bolsa Família por emprego cresce em Sorocaba, mas especialista alerta para 'pobreza invisível'
Saída do Bolsa Família por emprego cresce em Sorocaba, mas especialista faz alerta Sorocaba (SP) é a 6ª cidade do estado de São Paulo com mais saídas do B...
Saída do Bolsa Família por emprego cresce em Sorocaba, mas especialista faz alerta Sorocaba (SP) é a 6ª cidade do estado de São Paulo com mais saídas do Bolsa Família por causa da conquista de um emprego. Entre março de 2023 e maio de 2026, 396 beneficiários deixaram o programa após aumentarem a renda familiar. Os dados foram divulgados pelo Governo Federal em 1º de junho. O número é positivo, mas a renda mensal é um indicador limitado para medir a qualidade de vida. Quem faz o alerta é o sociólogo e doutor em Políticas Públicas, Vidal Mota, morador de Sorocaba. Ele aponta que o cálculo não consegue medir outras dimensões da vulnerabilidade social. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp Segundo o especialista, a pobreza vai além do dinheiro e envolve a falta de acesso a serviços básicos, os problemas relacionados à violência doméstica e às doenças. "A saída do programa pode ocorrer porque a pessoa ultrapassou o limite de renda exigido. No entanto, isso não quer dizer, necessariamente, que sua qualidade de vida melhorou. Em muitos casos, a situação de vulnerabilidade permanece", explica Mota. Programa Bolsa Família Divulgação/MDS Um cruzamento de dados feito pelo Governo Federal mostra que 80% das vagas com carteira assinada criadas no primeiro trimestre de 2026 foram ocupadas por pessoas inscritas no Cadastro Único (CadÚnico). A análise usou informações do Ministério do Trabalho (Caged). Apesar da inserção desse público no mercado formal, o sociólogo pondera que o cenário de emprego no Brasil ainda enfrenta problemas estruturais, tais como: informalidade, alta rotatividade, subemprego, trabalho precário e dupla jornada feminina. "Esses problemas atingem especialmente os grupos que concentram os beneficiários do Bolsa Família, como negros, mulheres negras, moradores de periferias e trabalhadores com baixa escolaridade", afirma o sociólogo. Para Mota, a conquista de um emprego só significa uma saída definitiva do programa se a vaga for estável, com carteira assinada e salário suficiente para cobrir os gastos básicos de toda a família. "A literatura da área utiliza o conceito de 'porta giratória' para descrever famílias que entram, saem e retornam ao programa em um processo cíclico. Isso ocorre porque estamos lidando com uma pobreza que é estrutural", conclui. Sorocaba (SP) ocupa a 6ª posição no ranking estadual de desligamentos do Bolsa Família por aumento de renda Divulgação/MDS O papel do Bolsa Família O Bolsa Família é a principal ferramenta de proteção social básica no Brasil, segundo Vidal Mota. O programa garante uma renda mínima e ajuda a diminuir a desigualdade. "O benefício serve como porta de entrada para outros serviços públicos. Ele também funciona como um estabilizador da economia local, já que o dinheiro circula nas periferias e fortalece o comércio das comunidades mais vulneráveis", explica o sociólogo. LEIA TAMBÉM: Famílias de Sorocaba reforçam como doação de órgãos pode salvar vidas; cidade tem índice de recusa abaixo da média nacional Menina com doença no coração morre após mobilizar campanha para doação de sangue: 'Legado que jamais será esquecido', diz mãe De Nilton Santos a Araken Patusca: fã vende coleção de livros com autógrafos de jogadores da Seleção Brasileira após tratamento de câncer Na ponta do sistema, o auxílio é o que garante o sustento de famílias como a da tecnóloga em logística Giovanna Cavalcanti, de 23 anos. Mãe de gêmeos de cinco meses, ela usa o dinheiro para pagar as contas de casa e as despesas dos filhos. "Com o dinheiro eu pago convênio pra eles e também outros custos variados, que são roupas, remédios, fraldas e leite. Mas também tento guardar metade do valor para poder ter em algum momento de emergência, seja no quesito da saúde quanto no quesito da alimentação", diz. A tecnóloga planeja deixar o programa antes de os filhos completarem cinco anos. Até lá, o auxílio será usado para garantir o bem-estar dos bebês. "Em breve eles vão começar a introdução alimentar e vou usar o dinheiro para comprar a comida deles", conta. Giovanna Cavalcanti, de Sorocaba (SP), depende do Bolsa Família para sustentar seus filhos Arquivo Pessoal Embora o programa seja considerado eficaz por especialistas, deixar de receber o benefício é um grande desafio em um mercado competitivo. A dificuldade é maior para quem tem baixa escolaridade. Segundo Mota, quando uma família perde o auxílio, ela enfrenta dois problemas principais: a instabilidade do novo salário e a falta de apoio do governo durante a transição para o mercado de trabalho. "O impacto é ainda maior para as mulheres negras. Elas são a maioria das titulares do benefício e as que enfrentam as barreiras mais duras no mercado de trabalho", afirma o sociólogo. Para contornar o problema, o especialista defende que o poder público precisa dar suporte a essas famílias. "O poder público também poderia garantir equipamentos de cuidado, como creches e centros de convivência, além do monitoramento ativo dos desligamentos do programa", diz. Vidal Mota, de Sorocaba (SP), Doutor em Políticas Públicas pela Unicamp Arquivo Pessoal Atendimento às famílias O g1 questionou a Prefeitura de Sorocaba a respeito do acolhimento para famílias que se desligaram do programa. Em nota, o órgão reforçou que os Centros de Referência de Assistência Social (Cras) realizam atendimento contínuo às famílias inscritas ou que se desligaram do benefício. "Quando identificadas situações de vulnerabilidade, as famílias podem ser inseridas em acompanhamento técnico pelas equipes de referência. Os centros permanecem de portas abertas para acolher, orientar e encaminhar as famílias sempre que necessário, independentemente de serem ou não beneficiárias do Programa Bolsa Família", diz a nota. Junto com os dados de desligamento, o Governo Federal também divulgou o funcionamento da Regra de Proteção, um mecanismo criado no novo desenho do Bolsa Família que funciona como uma rede de segurança para garantir uma transição segura e evitar o corte abrupto do benefício. Entenda como ela funciona: Auxílio de 50% por até 12 meses: mesmo após superar a linha de pobreza (R$ 218 por pessoa), a família pode continuar recebendo metade do valor do benefício por até um ano, desde que a renda por pessoa permaneça abaixo de R$ 706; Retorno garantido pelo Cras: se o trabalhador perder o emprego ou a renda voltar a cair durante esse período, a orientação do governo é procurar a unidade do Cras mais próxima. O Cadastro Único garante uma reversão rápida, permitindo o retorno imediato ao pagamento integral do programa. Ainda conforme o Governo Federal, o Bolsa Família atendeu 19,08 milhões de famílias no país, injetando R$ 12,9 bilhões com benefício médio de R$ 678,01. Desse total nacional, mais de 2,26 milhões de lares estão na Regra de Proteção. Mais informações podem ser obtidas no site oficial. Bolsa Família Lyon Santos/MDS *Colaborou sob supervisão de Júlia Martins Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí Initial plugin text VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM