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A nova vanguarda de Tarsila: herdeira conecta nova geração às obras da artista morta há mais de 50 anos

Sobrinha-bisneta de Tarsila do Amaral explica árvore genealógica da família Não é difícil de imaginar que se Tarsila do Amaral, ícone das artes e do mode...

A nova vanguarda de Tarsila: herdeira conecta nova geração às obras da artista morta há mais de 50 anos
A nova vanguarda de Tarsila: herdeira conecta nova geração às obras da artista morta há mais de 50 anos (Foto: Reprodução)

Sobrinha-bisneta de Tarsila do Amaral explica árvore genealógica da família Não é difícil de imaginar que se Tarsila do Amaral, ícone das artes e do modernismo brasileiro, vivesse na era digital, ela também encabeçaria uma renovação cultural - assim como fez na década de 20 ao lançar o 'Manifesto Antropofágico,' defendendo a valorização da identidade nacional ao lado de Oswald de Andrade. Agora é Paola Montenegro, sua descendente, que leva a nova geração a conhecer e se conectar com a obra da Tarsila. Em plataformas como Instagram e TikTok milhares de seguidores têm acesso fácil ao legado da artista. 📜 🔍O que foi o 'Manifesto Antropofágico'? Foi um movimento que defendia que a cultura brasileira deveria “devorar” influências estrangeiras e recriá-las valorizando a identidade nacional por meio de uma arte original, crítica e profundamente ligada às raízes do país. Desde 2023, a sobrinha-bisneta da artista, que tem 30 anos e desperta comparações pela semelhança física com a antepassada, administra a marca Tarsila S/A e leva às redes sociais curiosidades sobre a vida da ilustre parente. (assista acima) “O trabalho no digital surgiu da necessidade de reposicionar e atualizar a forma como a obra de Tarsila é percebida. A internet passou a ser usada como uma ferramenta de circulação e presença da obra estivesse inserida no cotidiano contemporâneo”, explica. Nos vídeos, Paola explica a visão da tia-bisavó em temas como feminismo, história e curiosidades sobre suas obras. Em um deles, por exemplo, ela conta que o Abaporu foi pintado para ser presente ao amigo Oswald, em 1928 e como o nome do quadro foi escolhido. (veja no infográfico abaixo onde essa e outras das principais obras de Tarsila estão expostas pelo 🌍) O trabalho dela na internet, segundo Victor Corte Real, diretor da Faculdade de Artes Visuais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) se enquadra na chamada midiatização da arte. " A ‘deselitização’ da arte é algo muito positivo, porque você tem mais pessoas podendo usufruir, ser sensibilizado, aumentando o próprio senso estético e o senso crítico”, disse. (leia mais abaixo) 'A Parte que me Cabe': herdeiros lutam na Justiça por herança da pintora Associação das Galerias de Arte não reconhece autenticidade de quadro atribuído a Tarsila Claudia Raia vive Tarsila do Amaral em retorno aos palcos Quadro de Tarsila do Amaral avaliado em R$ 250 milhões é encontrado embaixo de cama A artista e a sobrinha-bisneta são frequentemente comparadas pela semelhança física. Arquivo pessoal 'Caipirinha' com muito orgulho Nascida em 1886 no interior de São Paulo, Tarsila expressava em sua obra influência direta da região de Capivari. "Foi justamente ao ir para a Europa que ela passou a redescobrir o Brasil e a se reconhecer cada vez mais brasileira, trazendo para a obra aquilo que ela chamava de suas cores caipiras. O interior aparece com muito afeto nas paisagens de campo, nas cenas da fazenda e, de forma especialmente sensível, nos desenhos de pessoas no cotidiano rural", explicou a sobrinha-bisneta. Para Paola, os trabalhos da artista revelam um carinho profundo pelo interior paulista, não como algo folclórico, mas como memória, identidade e fonte constante de inspiração em sua trajetória. "Tarsila é a nossa caipirinha, com muito orgulho", concluiu. 🔎👪 Herdeiros: Tarsila teve seis irmãos, uma filha e uma neta. Estas duas últimas morreram enquanto ela era viva, e os direitos patrimoniais passaram aos seus irmãos, que conforme foram morrendo, repassaram suas porcentagens aos seus descentes. Hoje são mais de 50 os herdeiros da artista e, longe dos holofotes, eles travam uma disputa judicial pelos direitos sobre o legado da ilustre parente. (entenda abaixo) Infográfico mostra onde estão algumas das principais obras de Tarsila do Amaral (1886-1973) arte/g1 Democratização da arte O g1 abordou com Paola, durante a entrevista, como ela enxerga o papel da tecnologia na conservação do legado artístico de Tarsila do Amaral e sobre a ideia de utilizar as redes sociais nessa missão. A sobrinha destaca a intenção de dialogar com o público jovem, que ainda pode estar mais distante dos museus, pelo menos enquanto primeiro ambiente de contato com nomes e acervos da arte visual brasileira. “Esse movimento foi pensado para dialogar com novas gerações, que nem sempre se aproximam da arte pelo museu, mas que constroem interesse e repertório a partir do ambiente digital”, destaca. Para Paola, no caso de Tarsila, o digital atua como um primeiro contato para muitos brasileiros e “contribuiu para o acesso mais democrático à cultura”, nas palavras da herdeira da modernista. Ainda que reduza distâncias, Paola faz uma ressalva para esclarecer que as redes não ocupam o lugar da experiência física de visitar as galerias e museus. “A tecnologia tem um papel central na ampliação do acesso à arte em um país onde os museus ainda são pouco acessíveis para grande parte da população. A web não substitui a experiência presencial, mas reduz distâncias geográficas, econômicas e simbólicas”, afirma. A obra “Abaporu” (1928), de Tarsila do Amaral, foi inicialmente pintada como presente ao amigo Oswald de Andrade Thales Leite/Divulgação Paola ainda aponta que as plataformas digitais permitem que a obra de Tarsila seja interpretada a partir das linguagens do presente e criam continuidade entre diferentes gerações, como ferramentas de mediação. “Ajudam a contextualizar, explicar e ampliar a compreensão da obra sem afastá-la de sua origem histórica”, diz. Tarsila e Oswald de Andradese casaram na década de 1920 e foram um dos casais mais influentes da época. Arquivo Entre a erudição e os negócios Desde 2022, a marca Tarsila S/A amplia os licenciamentos para alcançar públicos de diversas faixas etárias e acesso econômico. Questionada, a marca não dimensionou em números quantos produtos são licenciados atualmente para trabalhar com a imagem e as obras de Tarsila do Amaral, mas listou que a empresa tem parceiros de negócios em segmentos como joias, lenços, papelaria, tapetes e almofadas, vinhos, quebra-cabeças, bolsas, prints e camisetas. “Essa variedade permite que a obra de Tarsila esteja presente no dia a dia dos brasileiros, em diferentes formatos e preços, fortalecendo a conexão com novos públicos e ampliando o acesso ao seu legado”, avaliou a herdeira e gestora dos direitos. Ela diz que tem como missão garantir que qualquer uso da imagem de Tarsila seja coerente com sua história, seus valores e sua importância cultural. Paola Montenegro é sobrinha-bisneta de Tarsila do Amaral e, desde 2023, lidera a Tarsila S/A @samantagstudios/Reprodução Marca e midiatização da arte O trabalho de Paola pode ser chamado, segundo especialistas, de midiatização da arte. Mas, isso é algo tão novo assim? A popularização da arte por meio das mídias sociais digitais não é exclusivo da era das redes sociais na internet. O pesquisador Victor Corte Real, diretor da Faculdade de Artes Visuais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas diz que o histórico da relação da arte com a própria mídia, ou midiatização, acompanha as inovações da comunicação, apresentadas pelos suportes de veiculação, do papel ao digital. O especialista vê essa incorporação da arte canônica, antes mais restrita aos museus e galerias, a novos suportes como positiva. “Você tira da elite e coloca na mão das pessoas. O acesso aos museus por meio dos sites, das mídias sociais digitais como TikTok, Instagram é positivo. É a arte chegando na mão das pessoas, por meio da democratização, da ‘deselitização’", disse. Disputa judicial Apesar do sucesso da estratégia da Tarsila S/A, nos bastidores os herdeiros do legado da artista mantêm nos uma disputa judicial pelo dinheiro gerado pela exploração do legado da artista. Antes de Paola, quem estava à frente da administração da empresa que gerencia a marca de Tarsila do Amaral era sua sobrinha-neta, homônima à tia-avó. 'Tarsilinha' cuidava até 2022 dos direitos e da exploração das obras da pintora, mas foi afastada em meio à questões envolvendo a desconfiança dos herdeiros sobre os contratos, que segundo eles, teve acordos comerciais firmados fora da estrutura oficial da empresa. Tarsilinha nega. Consultada sobre o assunto, a gestão comandada por Paola Montenegro afirma apenas que, desde que assumiu a gestão, com a empresa Tarsila S.A., vem trabalhando para modernizar processos e a forma como o legado da artista é administrado, sem entrar em detalhes sobre a briga no tribunal “Questões relacionadas à gestão anterior, incluindo eventuais contratos ou divergências financeiras, estão sendo tratadas na esfera judicial competente e não dizem respeito às decisões operacionais da minha gestão”, afirmou. Tarsilinha e o irmão informaram ao g1 que, como no período da morte de Tarsila o conceito de direito de imagem não era reconhecido, então foi criada uma forma de repartição dos valores “baseada em um acordo informal, sustentado exclusivamente pela confiança mútua entre os herdeiros”, forma essa que passou a não mais existir após a saída de Tarsilinha da empresa TALE, que fazia essa gestão no passado. Os irmãos afirmam não existir um instrumento jurídico que transfira à atual empresa a titularidade ou a exclusividade do direito de imagem aos atuais administradores. “Apesar disso, a empresa continua a atuar como se tivesse plena legitimidade. Não detém maioria entre os titulares do direito e, ainda assim, insere em contratos cláusulas que afirmam ter a exclusividade da exploração da imagem de Tarsila do Amaral. Esse é o cerne do conflito. Há quase quatro anos não recebemos qualquer valor”, alegam. O patrimônio artístico de Tarsila do Amaral cai em domínio público após 2043. 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